No mundo dos games, o sucesso é medido em cópias vendidas. Executivos perdem o sono tentando criar o próximo Call of Duty ou GTA, ajustando algoritmos para prender a atenção do jogador por mais 30 segundos. Mas Hideo Kojima, o homem que tem carta branca das duas maiores rivais da indústria (Sony e Microsoft), acaba de jogar essa lógica pela janela.
Em uma entrevista reveladora e intimista ao site japonês An An Web, Kojima fez uma declaração que vai na contramão de tudo o que se ensina em escolas de negócios, mas que define exatamente por que ele é insubstituível. Aos 61 anos, ele não está correndo atrás do primeiro bilhão; ele está fugindo do tédio.
A Anti-Estratégia: “Quero trabalhar com as mãos para sempre”
Ao ser questionado sobre seu ritmo frenético de trabalho — equilibrando três projetos gigantescos simultaneamente —, Kojima ofereceu uma visão rara sobre o que o motiva. Não é o dinheiro. Não é a fama. É a necessidade visceral de criar.
“Às vezes imagino uma vida onde faço o produto mais vendido, ganho dinheiro e depois volto a trabalhar depois de um longo tempo e pergunto: ‘Como todos estão?’… Mas não é meu trabalho fazer o produto mais vendido.“
Essa frase é um manifesto. Kojima admite que entende a fórmula do sucesso comercial (“o produto mais vendido”), mas rejeita a ideia de que sua função seja replicá-la. Ele se vê como um explorador, não como uma fábrica.
Ele continua, revelando um medo existencial que impulsiona essa busca pela arte em vez do lucro fácil:
“Eu não sei o que fazer quando estou em casa sem nada para fazer. Apenas assistir Blu-rays em casa é chato. Afinal, é difícil quando você se pergunta ‘Quem é essa pessoa?’ e tenta contatá-la, e não há ninguém com quem conversar sobre essas coisas. Eu quero continuar trabalhando com minhas mãos para sempre.“
O Último dos Artesãos Digitais
Diferente de muitos contemporâneos que se tornaram gestores distantes, Kojima se recusa a sair do “chão de fábrica”. Ele edita seus próprios trailers, dirige as capturas de movimento e supervisiona cada detalhe.
Essa postura de “artesão” é o que diferencia a Kojima Productions. Enquanto a indústria caminha para a produção em massa via IA e assets reutilizados, Kojima quer a imperfeição humana, a assinatura do autor.
Isso explica a natureza arriscada de seus próximos projetos:
- Em OD (Xbox): Ele não está tentando fazer um hit viral para o Game Pass. Ele está testando se o Cloud Gaming pode criar uma nova forma de terror que borra a linha da realidade. Ele mesmo admite que é “complexo” e incerto. Um executivo focado em vendas cancelaria isso; Kojima vê como missão.
- Em Physint (Playstation): Ele promete transcender barreiras entre filme e jogo. Não é sobre vender skin, é sobre elevar a mídia a um novo patamar artístico.
O Valor do Prestígio sobre o Lucro
Para o mercado, a pergunta é: por que Sony e Microsoft brigam por ele, sabendo que ele se recusa a fazer o “arroz com feijão” comercial?
A resposta é simples: Kojima entrega prestígio. Ele é o departamento de “Pesquisa e Desenvolvimento” de luxo da indústria. Seus jogos expandem os limites do que é possível, influenciando gerações de designers. Um Death Stranding pode não vender tanto quanto um FIFA, mas ele valoriza a marca PlayStation (e agora Xbox) como um lar para a inovação artística.
Conclusão: A Arte como Conexão
No fim das contas, a entrevista revela um homem que usa seus jogos para se comunicar. A solidão que ele descreve (“não há ninguém com quem conversar”) é combatida através de suas obras. Death Stranding foi sobre reconectar uma sociedade quebrada; OD parece ser sobre testar os limites do medo compartilhado.
Kojima não cria para ficar rico. Ele cria para não se sentir sozinho. E, para nossa sorte, essa terapia ocupacional resulta nas experiências mais únicas que o dinheiro pode comprar.
E você, prefere a segurança dos blockbusters anuais ou a ousadia “arriscada” de autores como Kojima?












